segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

J.BORGES: ARTISTA ORGÂNICO

O termo “Intelectual Orgânico” cunhado pelo pensador Antonio Gramsci identifica a intelectualidade desenvolvida através do empirismo. Atrevo-me a dizer que o gravador e cordelista J. Borges pode ser chamado de Artista Orgânico. Nascido na cidade pernambucana de Bezerros, em 20 de dezembro de 1935, José Francisco Borges é fruto da terra, no caso, do árido sertão nordestino. Até os 8 anos de idade, J.Borges trabalhou com o pai na roça. Aos 12 anos, ao conhecer a Literatura de Cordel numa feira livre, apaixonou-se pelos versos cantados pelo cordelista na ânsia de vender os seus livretos. Foi somente nesse momento que Borges teve o desejo de ser alfabetizado. Numa de suas recentes entrevistas, o cordelista sustenta que a própria literatura de cordel servia para alfabetizar as pessoas. Mas não foi inicialmente a forma, mas o verbo que atraiu Borges para o Cordel. O verso, o repente, a poesia foram as características do Cordel que encantaram o futuro gravador. Aos 29 anos, decidiu dedicar-se à Literatura de Cordel. Sua primeira obra “O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina”, com xilogravura do Mestre Dilá teve boa aceitação. J. Borges disse certa vez que começou a fazer os livretos para “comer”. O fato de “comer” a sua obra em um sentido figurado é mais uma característica da Arte amalgamada no Artista. Borges diz que só começou a entalhar a madeira porque não tinha dinheiro para encomendar novas xilogravuras. E com o tempo criou um estilo reconhecível. As ferramentas e o suporte, a madeira, era uma tecnologia rústica própria de sua realidade. Somente como tempo comprou uma prensa que exibe hoje na sua casa em Bezerros, às margens de uma BR. A casa de Borges é um verdadeiro mercado de Cordel e também um ponto turístico na cidade. O grande sucesso de J.Borges é o livreto “A Chegada da Prostituta no Céu”. Já vendeu mais de 100 mil exemplares dessa obra. Calcula o autor que produziu cerca de 250 livretos. Das gravuras realizadas, diz que já perdeu a conta. O talento orgânico de Borges começou a ganhar o mundo quando turistas compraram algumas de suas gravuras e levaram para o Rio de Janeiro. Em 1970 ilustrou a capa do livro “Palavras Andantes”, de Eduardo Galeano. E por influência de Ariano Suassuna fez as gravuras da abertura da novela Roque Santeiro, da Rede Globo. Daí por diante, segundo J.Borges “não parou mais de estacionar carro na frente de sua casa”. Em 2006, foi considerado pelo jornal New York Times, um “Gênio da Cultura Popular”. Convém dizer também que em janeiro de 2010, a profissão de Cordelista foi regulamentada no Brasil. Em nosso seminário sobre J.Borges, realizado no dia 19 de setembro, no auditório do Polo Barretos da UAB, procuramos contar essa história. Foi em forma de bate-papo. Produzimos um varal com algumas gravuras de J.Borges e envolvemos os colegas no barbante da Arte do Cordel. Seria ótimo se eu pudesse apresentar o seminário em versos de Cordel, mas reconheço minha limitação nesse campo. Em meio a um universo tecnológico que apresenta inúmeras alternativas à Arte considerei importante ressaltar também o papel ainda importante da Arte Popular feita com poucos recursos. Penso que os recursos servem à Arte e não a determinam. Sintetizando, considerei que o Seminário conseguiu mostrar um pouco da obra de J.Borges e foi muito interativo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário